Publicado por: erickpingado | 23/02/2011

Black Swan

Cisne Negro.

Começo com o título para respirar e tentar ordenar tudo o que vem em minha cabeça.
Poderia passar direto da parte em que faço um breve resumo do filme, até por parecer clichê contar a história de uma artista que é sucumbida pelo próprio perfeccionismo e acaba por misturar a vida real com a ficção da qual encena. Mas não, não posso passar direto – Lembro-me de Piglia quando fala que um conto tem uma estrutura superficial e trivial, escancarada ao leitor e outra profunda, codificada. O filme Cisne Negro é como o espetáculo Cisne Negro proposto pelo artista Thomas (Vicent Cassel): parece clichê, mas trás uma roupagem diferente, moderna; e por trás disso tudo, um drama psicológico profundo.

A Mãe

Erica Sayers, interpretada por Barbara Hershey, é uma ex-bailarina inconformada por abandonar a carreira devido à gravidez. Erica parece esquivar de sua realidade, se veste e usa maquilagem como se estivesse pronta para mais um dia de ballet. Toda essa frustração resulta em uma criação eternamente infantil de sua filha. Mantém o quarto com cores infantis assim como os bichinhos de pelúcia. Erica, além de pintar medonhos quadros de sua própria filha (Nina) – e chorar enquanto os pinta – vive regulando os horários e a vida privada de Nina.

O professor

Vicent Cassel, em ótima performance, como nunca deixou de ser, interpreta Thomas Leroy, um professor que suga toda energia de seus bailarinos a favor de um espetáculo ousado. Thomas utiliza métodos completamente fascistas para “educar” a bailarina Nina e extrair dela o que ela tem de pior. Ele abusa de seu poder, seduz, e atormenta a recatada garota, que apesar de assumir não ser virgem, parece mais casta que uma criança de doze anos. Thomas nunca mede as consequências de seus atos, e talvez nunca tenha pensado ou se responsabilizado por trabalhar o psicológico de seus bailarinos da forma como ele trabalha. Ele inclusive deixa desamparada a recém aposentada bailarina Beth Macityre, que segundo o próprio Thomas, parece ter intencionalmente se acidentado – o que nos leva a crer que é devido ao abandono pelo próprio diretor e o fim de sua carreira como estrela principal do ballet.

A bailarina acidentada

Beth (Winona Ryder) sofre um acidente logo após saber que foi trocada no ballet por Nina. O que faz com que a jovem sinta um certo peso e culpa por ver sua companheira de profissão numa cama de hospital.

A amiga negra

Já influenciada pelos sonhos com o ballet dos cisnes, Nina se depara pela primeira vez com Lily (Mila Kunis) em um metrô. Neste momento ela nota certa semelhança física entre elas. Mais tarde, Nina encontra-se novamente com Lily no ballet e descobre que são colegas de profissão. Nina vê Lily como uma libertina e liberta, uma bailarina que, segundo Thomas, não possui o domínio da técnica como Nina, mas se movimenta com naturalidade, leveza e sensualidade. Lily tenta fazer amizade com Nina, a faz conhecer um pouco de si própria, mas vai tomando dimensões assombrosas para a personagem principal. O fato de Lily ser admirada por Thomas e possuir características de “cisne negro” aguça o imaginário de Nina, Lily passa a ser também uma ameaça.

NINA

É neste ambiente que vive a personagem de Natalie Portman. Nina tem em seu quarto uma caixinha que toca a melodia do Cisne Negro, o que talvez a faz sonhar com a peça antes mesmo dela surgir como proposta de espetáculo do seu ballet.
Nina é a escolha perfeita para viver o Cisne Branco, mas a ousadia de Thomas pede que a bailarina principal interprete as gêmeas – o negro e o branco. Nina tem então que libertar-se, conhecer seu lado mais escuro.

É através da temática da sexualidade que Aronofsky conduz a transformação no filme e Thomas conduz a libertação de Nina.
De uma garota frígida na vida e na dança, bloqueada pela mãe, Nina vai sendo incentivada a conhecer seu próprio corpo, a tocar-se e masturbar-se.
A sexualidade é “recalcada” em Nina. Ela precisa entrar no jogo, deixar-se conduzir uma auto-analise. Conhecer a ela própria.
A mãe que tenta criar a filha como uma criança, está presente até no primeiro ato de liberdade, quando Nina se toca pela primeira vez após sugestão de Thomas. Ela é a guardiã do lugar comum.

Erica parece não querer ver sua filha atingir um status mais alto e superá-la. Erica é uma bailarina frustrada que nunca conseguiu notoriedade. Ela inclusive tenta conformar a filha e encorajá-la a aceitar os papéis menores.

É nesse ambiente sempre claustrofóbico, polifônico e perturbador que Nina vai se perdendo e se encontrando. Aronofsky mostra a dualidade de Nina também através da fotografia. Com jogos de luz e sombra, ele apresenta a psicose da personagem e seu lado escuro vai prevalecendo ao caminhar do fim do filme.

Nina vai afundando-se cada vez mais, os diagnósticos psicopatológicos são mais evidentes. Ela se sente perseguida por si mesma e por Lily. Sua própria imagem no espelho parece ser inimiga.

Nina, mergulhada em seus delírios deixa de distinguir realidade e ficção. Suas feridas já deixam de ser humanas, seu corpo começa a ser tomado por penas e seus pés começam a se transformar em patas de cisne. A personagem começa a se ferir cada vez mais.
Lily, sua amiga-inimiga, acaba virando mais um de seus delírios. A cada vez que Nina tenta atacar estes delírios ela acaba atacando a si própria. Nina é sua própria assombração e isso leva-a conseguir o feito de encarnar a dualidade do cisne branco e negro. Chegado esse momento Aronofsky também se entrega. Assume os efeitos old-school. Aproxima-se mais da nova Nina, dança com ela, troca olhares com os avermelhados olhos do cisne negro. Por fim e esperado, a psicose de Nina toma dimensões graves, a bailarina não é sucumbida pelo perfeccionismo, mas pelo mergulho em si mesma. Por superar as barreiras do corpo e perder-se nas barreiras da mente. Nina é ovacionada por sua performance e… (só pra não contar o final).


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