Publicado por: erickpingado | 03/04/2010

À Deriva

À Deriva conta, sobretudo, a história de uma separação aos olhos de uma garotinha de quatorze anos. Paralelamente à história principal narra-se uma segunda e importante história, a passagem ao mundo das descobertas físicas e sentimentais. A personagem Filipa, apesar da pouca idade, vai amadurecendo-se para o mundo adulto quando começa a perceber que a vida não é tão colorida como pensava. Ela carrega consigo o segredo de um relacionamento extra-conjugal do pai, Mathias, interpretado por Vincent Cassel e o abusivo consumo de álcool da mãe, Clarice – Debora Bloch. De modo contemplativo, Heitor Dhalia nos insere na paisagem de Búzios e principalmente nas relações entre a família objeto. O diretor consegue explorar com muito cuidado, o lado psicológico tenso e frágil da relação de Clarice e Mathias. O silêncio pode ser lido e os diálogos quase nunca representam a verdade a ser dita. À Deriva nos trás a experiência da fragilidade do mundo idealizado, algo impossível de se sustentar. Mathias, que é um escritor, leva para suas obras literárias os problemas conjugais, enquanto Clarisse desconta na bebida. Todos esses “males” mundanos vêm sendo assistido por Filipa, que com o tempo vai passando a decodificar a vida à sua própria maneira, a partir de sua própria experiência, replicando às vezes nos amigos, aquilo que conclui da relação dos pais.

Todo esse ambiente hostil a uma criança leva à consequente perda da inocência, que no filme, foi representada na forma física. Filipa dá seu primeiro beijo e perde a virgindade com um adulto.

É interessante notar que em À Deriva as relações amorosas entre homem e mulher, menino e menina, são sempre quebradiças e fingidas. A sinceridade é algo à parte de um relacionamento. Para fortalecer essa premissa, temos no filme o famoso caso do casal Street-Diniz, onde Doca Street mata sua mulher, a socialite Ângela Diniz. Esse caso verídico ilustra ainda mais o horror e a desilusão das relações amorosas. O amadurecimento de Filipa parece trazer um toque de responsabilidade de herói à personagem. Ela começa a ser atormentada pelo reflexo da morte de Ângela e pelo relacionamento deteriorado dos pais. Decide então se livrar do mal maior ao jogar a arma do pai no mar, evitando a possibilidade de que a mãe acabe morta como a socialite.

Por fim, o único amor verdadeiro que sobra no filme é o de Mathias e Clarice pelos filhos. À Deriva é um bom filme com boas atuações. Vicent Cassel abusa do ótimo Português, Deborah Bloch tem uma atuação sem excessos e Laura estréia como gente grande, brilhando.

À Deriva, direção e roteiro: Heitor Dhalia, 2009.

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  1. bem-vindo!


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